Semi-árido tem potencial para produzir leite

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10/04/2003

Semi-árido tem potencial para produzir leite

 

As propriedades que utilizam o manejo adequado do rebanho conseguem reduzir o custo de produção em até 40%

 

A aridez do sertão nordestino, até então considerado um grande entrave ao desenvolvimento da pecuária na região, está se revelando um fator competitivo para a produção de leite. Combinadas com irrigação, as três mil horas de sol e as temperaturas elevadas favorecem o cultivo de pastagens o ano inteiro, reduzindo despesas com estocagem de forragem, que resultam em ganhos de para o setor.

De acordo com Raimundo José dos Reis, gerente do projeto Pasto Verde, da Secretaria de Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Seagri), em propriedades no semi-árido que utilizam manejo adequado o custo de produção do leite é 40% menor do que a média de outras regiões. `Em pequenas fazendas cearenses estamos produzindo o litro entre R$ 0,20 e R$ 0,25 enquanto no estados do Sudeste e Goiás o custo mínimo (médio) é de R$ 0,35`, observa.

`O Nordeste tem potencial não só para ser um grande produto nacional mas também para se consolidar como exportador de leite`, reforça Rodrigo Sant'Anna Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite, vinculada à Confederação Nacional da Pecuária (CNA). `Os animais produtores de leite não gostam de chuva ou lama, ao contrário. Basta pasto verde. Alguns dos grandes produtores mundiais desenvolvem a atividade no semi-árido`, diz.

Conforme Raimundo Reis, da Seagri, a produção do alimento principal do gado leiteiro, o capim (ou volumoso), fica comprometida nas demais regiões mais frias do país. `Por mais que haja água ou se aplique adubo, o capim não cresce a temperaturas inferiores a 15º centígrados. E isso requer investimentos em silagem e outras técnicas de conservação de alimentos que redundam em custo maiores para os produtores.`

Já no Nordeste é possível produzir o ano inteiro, sem necessitar investir tanto em silagem. Raimundo Reis ressalta, no entanto, que o potencial da região não pode ser confundido com produção efetiva. Excetuando algumas experiências pontuais e bacias leiteiras tradicionais, na média os estados nordestinos ainda têm um longo caminho para avançar, até consolidar uma produção substancial seja em volume ou produtividade

Obstáculos

Embora reuna condições climáticas satisfatórias para a pecuária de leite os estados nordestinos precisam remover muitos obstáculos ao desenvolvimento da atividade. De maneira geral, o manejo inadequado; a baixa qualidade genética; problemas com sanidade, e a própria alimentação administrada ao rebanho ainda são comuns na maioria das propriedades, afetando negativamente a produção.

Mesmo tendo apresentado crescimento mais expressivo que a média regional na produção de leite nos últimos anos, o Ceará espelha bem a defasagem em relação a outras regiões. Enquanto a produtividade por animal no estado é de 730 litros anuais, a média brasileira é 1,2 mil litros/ano e a de países como os Estados Unidos alcançam 7,7 mil litros/ano. Entre 1991 e 2001, o volume de produção no Ceará evoluiu 9,66%, ante 4,21% do Nordeste.

O Ceará também reflete os problemas comuns a outros estados no tocante à demanda. A produção estadual -cerca de 850 mil litros por dia, é insuficientes para atender o mercado que importa outros 300 mil litros de lácteos - incluindo queijos, iogurte. Esse volume, poderia ser atendido se o plantel disponível fosse melhor aproveitado para a produção de leite.

`Do rebanho total de 2,174 milhões de bovinos, apenas 20% produzem leite o ano inteiro. Deveríamos ter, no mínimo, 800 mil matrizes produzindo`, pondera. Segundo ele, isso não corre porque muitos produtores não cultivam pastos verde na época da estiagem. `Nossa experiência mostra que onde há um açude, barragem ou poço subterrâneo essa lógica pode ser quebrada`, diz.

Os problemas regionais, por sua vez, podem ser transpostos para o âmbito nacional, que também sofre com a baixa produtividade e o não aproveitamento pleno das oportunidades de mercado - o consumo brasileiro de lácteos é reduzido e as exportações nacionais ainda tímidas. `Apesar disso, os estrangeiros estão preocupados com o potencial do Brasil. Nenhum país dispõe de 90 milhões de hectares agricultáveis para explorar`, ressalta Rodrigo Alvin.

Curiosamente, é justamente o subaproveitamento do potencial brasileiro que projeta a pecuária leiteira nacional para uma posição de destaque no cenário mundial. ` Os maiores produtores mundiais trabalham a base de subsídios governamentais, pois têm custo muito alto. O produtor brasileiro recebe o menor preço pelo leite. Por isso, potencialmente é muito competitivo`, pondera Rodrigo Alvim. O Brasil vem produzindo, nos últimos anos, mais de 20 bilhões de litros.

 

Darlan Moreira, de Fortaleza
damoreira@gazetamercantil.com.br

 

Oferta de leite

Produção no Brasil

Milhões de litros

1991 15,1

1995 16,5

2000 19,8

2001 20,5

2002 20,4

2003* 21,2

*Projeção. Fonte.: Comissão Nacional de Pecuária e Leite.