Trigo é o novo desafio da agricultura baiana

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02/05/2003

Trigo é o novo desafio da agricultura baiana
 

 

Retomada da produção do cereal começa pelo município de Mucugê, na Chapada Diamantina

A Bahia está retomando a produção de trigo. A viabilização da cultura será fundamental para o agronegócio baiano, já que o estado precisa importar todo o trigo que consome. O plantio do cereal começou em abril, em uma área de 300 hectares no município de Mucugê, na Chapada Diamantina. Estudos também estão sendo realizados em Barreiras, a 855 km da capital, para a viabilização da cultura em 20 mil hectares irrigados.

Atualmente, os principais produtores de trigo no Brasil são os estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul. A produção, no entanto, ainda é pequena, face às necessidades do país, que precisa importar 70% do trigo que consome a cada ano. Na Bahia, 100% do trigo utilizado vem da Argentina e do Rio Grande do Sul.

Pesquisas da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) apontam que as condições de solo, altitude e temperatura de algumas regiões do estado são favoráveis à produção de trigo. "A Bahia tem condições de produzir cinco toneladas por hectare na fase inicial", disse o diretor-presidente da EBDA, Joaquim Santana, comemorando a entrada do estado entre os produtores brasileiros do cereal.

Segundo Santana, o plantio de trigo vai proporcionar economia de divisas e geração de receitas para o estado, além de criar mais uma opção de cultivo para os agricultores. "O produtor poderá fazer uso da rotação de cultura, o que o ajudará na quebra do ciclo de doenças na lavoura", disse. Em anos anteriores, o estado já foi produtor de trigo. No entanto, as variedades plantadas tinham baixa capacidade produtiva e pouca qualidade industrial.

"Vamos continuar trabalhando novas variedades a fim de aumentar nossa base genética e identificar variedades mais produtivas do que as já disponíveis no estado", informou o diretor-presidente da EBDA. A operacionalização da cultura é fruto de um protocolo assinado, no mês passado, entre a Secretaria da Agricultura (Seagri), a Empresa Brasileira de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola (Embrapa), a prefeitura de Mucugê e o grupo J. Macedo.

A empresa privada tomou a iniciativa de comprar todo trigo que for produzido na região, garantindo a comercialização da safra em condições competitivas para os produtores. "Vamos adquirir toda a produção do trigo nos mesmos níveis de preço e qualidade praticados pelo mercado mundial do produto", disse o diretor institucional da empresa J. Macedo, Ricardo Ferraz, assegurando que pagará pelo trigo o mesmo valor que a empresa compra o cereal que chega no Porto de Salvador.

Apesar da parceria estabelecida com a J. Macedo, a venda do produto é aberta à participação de qualquer outra empresa interessada no negócio. A indústria está presente desde 1968 no estado, com um moinho em Salvador e fábricas de massas Brandini, de mistura para bolo Dona Benta e de Biscoito Águia. O grupo de origem cearense utiliza cerca de um milhão de toneladas de trigo por ano na produção de alimentos à base do cereal. Com faturamento de US$1 bilhão no ano passado, a empresa projeta este ano um crescimento de 3% no mercado baiano e nacional.

 

Aratu terá maior moinho da AL

 

O grupo Moinho Dias Branco está investindo R$500 milhões na construção do Grande Moinho Aratu, na Bahia. O empreendimento, onde funcionará também uma fábrica de biscoitos e de massas e um terminal portuário, será o maior moinho de trigo da América Latina (AL), com capacidade de produção de 1,8 mil toneladas de trigo por dia. A inauguração do complexo, instalado em um espaço de 354 mil metros quadrados, sendo 120 mil metros quadrados de área construída, já está marcada para o dia 8 de dezembro.

"Toda a parte de construção civil e industrial já está praticamente concluída. Agora, está sendo realizada a montagem dos equipamentos", afirmou o diretor comercial da divisão de moinhos do grupo Dias Branco, Luiz Eugênio Pontes. A estimativa é de que o empreendimento gere algo entre mil empregos diretos e mais sete mil indiretos. O Grande Moinho de Aratu irá ultrapassar, em volume de produção, as duas divisões de moinhos do grupo, instaladas nas cidades de Natal (RN) e Fortaleza (CE). Além da Bahia, o grupo Dias Branco também está construindo um moinho de trigo em João Pessoa (PB), com investimentos de R$100 milhões.

Criada em 1953, a Dias Branco tem tradição no segmento alimentício. Seu portfólio de produtos possui 85 itens diferentes, entre eles marcas já conhecidas do público, como Richester, Fortaleza e Monarca. Boa parte do mix da empresa será produzida nas fábricas baianas, inclusive a farinha de trigo enriquecida com ferro e vitaminas do complexo B (B1, B2, B6 e B9). A localização geográfica de Aratu, pela possibilidade de a empresa ter um porto próprio, foi uma das razões que levaram o grupo a optar pelo investimento no estado. O projeto para construção do terminal portuário ainda está em fase de análise. (GP)

 

Parceria revitalizará panificação

 

A farinha de trigo multivitaminada, produto à base de ferro e vitaminas do complexo B, será incluída na merenda escolar dos estudantes da rede de ensino público da Bahia e na produção de pães nas padarias baianas. Este é o resultado de uma parceria entre o governo, através do programa Mais Pão, integrante do Fome Zero, e o Moinho Dias Branco, que há sete meses vem fornecendo a farinha multivitaminada com exclusividade para a Ebal. A parceria visa também revitalizar o setor de panificação do estado, com a criação de um selo de qualidade para os estabelecimentos cujos profissionais passaram por um programa de qualificação.

O Moinho Dias Branco investiu US$1 milhão em equipamentos e desenvolvimento de pesquisas para que a farinha de trigo resultante da adição de ferro e vitaminas não tivesse alterações na cor, sabor e odor. Por questões estratégicas de mercado, o diretor comercial da divisão de moinhos do grupo Dias Branco, Luiz Eugênio Pontes, não divulga dados da produção atual de farinha multivitaminada, nem o quantitativo do produto fornecido à Ebal. A capacidade instalada das duas divisões de moinho do grupo, localizadas nas cidades de Natal e Fortaleza, é de 1.463 toneladas por dia.

Integrante do programa Fome Zero, do governo federal, o Mais Pão é uma iniciativa da Secretaria de Combate à Pobreza (Secomp), que vai utilizar o produto para combater a deficiência calórica-proteica na alimentação de cerca de 60% da população baiana. O governo quer incluir o pão enriquecido na merenda escolar dos estudantes da rede pública, nas escolas, nos hospitais e creches mantidos pelo estado. A expectativa é de aumentar o consumo per capita de pão na Bahia, que ainda está longe do índice recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O consumo é de 19 quilos de pão por habitante no estado, bem abaixo dos 60kg recomendados pela OMS e dos 80kg consumidos na Argentina, por exemplo.

A parceria é fruto também de uma estratégia para melhorar a qualidade da cadeia produtiva do pão no estado, através da revitalização do setor. A idéia é criar um selo de qualidade para as panificadoras e qualificar os cerca de 60 mil profissionais do ramo. O projeto já tem o suporte do Sebrae por meio do Programa de Apoio Tecnológico à Pequena e Média Empresa (Patne), que vai aplicar a fundo.

 

Gladys Pimentel