Prejuízos são de tirar o couro

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05/05/2003

Prejuízos são de tirar o couro

 

Especialistas dizem que o País deixa de ganhar cerca de US$ 5 bilhões por ano em exportações

Há 15 anos, o Brasil exportava mais couro do que a China, mas, atualmente, os chineses vendem US$ 11,5 bilhões por ano, um volume 4,6 vezes a mais do que os negócios brasileiros, que estão em torno de US$ 2,5 bilhões por ano com exportações de couro e subprodutos. Na visão do presidente da Associação Brasileira do Novilho Precoce – entidade de âmbito nacional que reúne associações de criadores e pecuaristas das raças de corte –, Constantino Ajimasto Jr., as vendas são consideráveis, porém abaixo da capacidade real do mercado.
  
Para ele, o comércio de couro no País é um segmento pouco valorizado na cadeia da pecuária e, por isso, deixa de proporcionar ao Brasil até US$ 5 bilhões por ano em exportações e de gerar pelo menos 400 mil novos postos de trabalho no campo. E muitos são os gargalos que prejudicam esta cadeia, diz Constantino Ajimasto:
  
– Um deles está relacionado a uma política tributária pouco compreensível, que incentiva a exportação de couro em estágios primários (wet blue), com benefícios fiscais, e penaliza a exportação de produtos acabados e manufaturados, com impostos. Isso proporciona situações inusitadas, como a exportação de couro wet blue pelos curtumes a US$ 31,50 a unidade, enquanto compram o couro verde dos frigoríficos a US$ 32.
  
A iniciativa da Braspelco – uma das indústrias de couro do País –, de oferecer ao produtor até 8% a mais pelo couro sem marca a fogo, foi apontada pelo presidente da Associação Brasileira do Novilho Precoce como importante para o setor, por acreditar que o pagamento pela qualidade do couro diretamente ao pecuarista motiva-o a tomar certos cuidados durante a criação do animal, evitando que o couro sofra danos irreversíveis.
  
– Na verdade, há poucos exemplos de campanhas sérias de esclarecimento ao criador sobre a obtenção do couro de qualidade. Além disso, não há uma política clara de remuneração; o pecuarista não sabe exatamente como lidar com o couro e não se interessa em saber porque não recebe nada por ele. O Brasil não conseguirá participar mais ativamente do comércio mundial, seja couro wet blue ou acabado, se o pecuarista não estiver corretamente envolvido –, diz.
  
Durante a última década, o setor de curtumes pagou pelo couro cru brasileiro o correspondente à metade do valor pago pelo produto americano, isso em razão de defeitos, como marcas de fogo em áreas nobres, riscos provocados por arame farpado, degradações causadas por carrapatos e sarnas, esfolas precárias, causando furos e cortes, e má conservação das peles após o abate, encontrados em 93% dos couros brasileiros. Nos EUA, somente 5% dos couros apresentaram tais defeitos.

TAMBÉM NA BAHIA – Em abril, quando esteve em Salvador, participando de uma mesa-redonda sobre o mercado de couro na Bahia, o representante de Braspelco, Carlos Obregon, falou da preocupação da empresa com qualidade do couro nacional. Segundo a Braspelco, na última década, cerca de US$ 5,6 bilhões foram perdidos em desperdícios de couro. Na avaliação da empresa, os produtores brasileiros de couro cru deixaram de ganhar e transferir ao setor pecuário cerca de US$ 500 milhões por ano, entre 1986 e 1995. O abate, nesse período, passou de 20 milhões para 28 milhões de bovinos, atingindo uma média de 24 milhões de abates anuais.
  
Na ocasião da mesa-redonda, promovida pela Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia (Seagri) e o Instituto Miguel Calmon (Imic), os participantes identificaram os mesmos gargalos na produção e os mesmos problemas estruturais, que se traduzem no baixo aproveitamento do couro do rebanho baiano. Como alternativas, sugeriram o fortalecimento da cadeia produtiva, com o incentivos para fixação de empresas beneficiadoras do couro, e medidas para evitar a saída do couro do Estado. Também estiveram presentes Antônio Ramiro (Curtume Campelo) e Cláudio Murilo Xavier (Sindicouro).

 

Ari Donato