Algodão sem mercado local

Text Resize

-A +A

Compartilhar

02/08/2004

Algodão sem mercado local

A ampliação da área plantada na Bahia, sem aumento da demanda no stado, deixa produtores preocupados com a sustentabilidade do negócio

MIRIAM HERMES (BARREIRAS)
e ARI DONATO

A Bahia, segundo produtor nacional de algodão – 684.601 toneladas, colhidas em 201.512 hectares, em 2004, contra 276.337 e 85.744, respectivamente, em 2003 – não absorve sua própria pluma, por falta de um parque têxtil, e vende 70% da produção ao Ceará, a preços que despencaram, de R$ 73 a arroba, no primeiro semestre, para R$ 48,90. Esta expansão, principalmente no oeste do Estado, com previsão de 220 mil ha e colheita de 330 mil toneladas na safra 2004/2005, tem deixado os produtores preocupados com a sustentabilidade da commodity.

Este mesmo temor, diante do crescimento da área plantada sem garantia de venda do produto no mercado de futuro, dos preços baixos e da falta de informações para aumentar as exportações, foi manifestado no mês passado, por cerca de 400 cotonicultores brasileiros – a maioria dos cerrados, região responsável por 80% do algodão nacional – reunidos em Buenos Aires (Argentina), durante o 10º Clube da Fibra 2004.

Seguindo a trilha do encontro de Buenos Aires, organizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e a FMC Agricultural Products, divisão da multinacional norte-americana FMC Química, os produtores baianos se reúnem em Janaúba (MG), dias 6, 7 e 8, para debater temas semelhantes, principalmente expansão da área plantada e exportação, durante o II Cotton Bahia, organizado pela Norte Mineira de Algodão, com apoio da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), sediada em Barreiras.

Na opinião do presidente da Abapa, João Carlos Jacobsen, o aumento de área plantada é preocupante, por não haver no Estado uma infra-estrutura de suporte para colher, beneficiar e escoar, nem mercado para absorver toda a produção. Ele informa que a associação tem recomendado o aumento da área somente aos produtores que tiverem contrato de comercialização para 2005. Jacobsen e o produtor Walter Horita participaram do 10º Clube da Fibra e focalizaram a situação do algodão na Bahia.

“Nosso propósito é evitar transtornos na colheita, porque os investimentos para a cultura do algodão são altos e quem não tiver acesso ao nicho de mercado de exportação provavelmente terá dificuldades”, afirma Jacobsen, advertindo que o produtor com produtividade abaixo da média fatalmente sofrerá prejuízos. “É importante que todos estejam conscientes”, complementa.

O declínio dos preços do algodão no mercado internacional, de acordo com o presidente da Abapa, se deve ao fato de o mercado estar abastecido. A China e os Estados Unidos, diz ele, aumentaram a área plantada e reduziram as compras no mercado externo. “Isso contribuiu para a queda dos preços”, afirma o presidente da Abapa.

No seu entendimento, seria fundamental que o Estado agilizasse “o mais rápido possível” as mudanças a serem feitas no Proalba (Programa de Incentivo a Cultura do Algodão no Estado da Bahia) “para que o Fundeagro, que recebe recursos do Proalba, tenha caixa para bancar o Programa de Combate ao Bicudo, praga que é uma séria ameaça ao algodão baiano”.

Retomada – O algodão já foi destaque nos vales da região, quando deu a Barreiras uma indústria de tecelagem, fechada na década de 1960. Sem mercado, os algodoeiros do Vale do Rio Grande perderam produtividade e, no final dos anos 1980, a agricultura do cerrado estava quase toda assentada na soja. Duas décadas depois, outras culturas foram incorporadas, diversificando a matriz agrícola regional. Entres elas, o algodão, que voltou, cobrindo 162 mil hectares (16,5 mil irrigados) das terras locais.

Esta nova fase da cotonicultura baiana começou em 1995, em uma área de 2.400 hectares, mas não se restringe às áreas dos cerrados, no oeste, com uso da tecnologia de ponta, que alcança 3.675 kg/ha no sequeiro e 4.200 kg/ha no irrigado. Também o Vale do Iuiú, no sudoeste, onde a cultura foi destaque nos anos 1980, está ganhando novo fôlego. Incentivos – o governo do Estado renuncia a 50% do imposto cobrado na comercialização –, e pesquisas que adaptam variedades e minimizam efeitos de pragas e doenças, têm ajudado.

Pelas características próprias dos cerrados (terras planas, chuvas com períodos bastante definidos, dentre outras) no alto dos gerais a expansão da área foi expressiva. No oeste baiano, segundo dados da Embrapa, a evolução de quantidade produzida de 1990 a 2000 foi de 1.532%, passando de 7.583 para 123.769 toneladas de algodão em caroço. Neste período o aumento da produção na Bahia foi de 24,98%, no Nordeste de 61,38% e no Brasil de 12,56%, segundo dados do IBGE.

PESQUISA – Desde 1998, a Fundação de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento do Oeste da Bahia (Fundação BA) trabalha na investigação das melhores cultivares e no aperfeiçoamento da tecnologia utilizada para aumentar os índices de produtividade. Nos primeiros anos, a pesquisa foi bancada pelos produtores e empresas mantenedoras e feita em parceria com a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) e Embrapa Algodão.

As distâncias entre os campos experimentais e a sede da Fundação BA são as maiores dificuldades enfrentadas. De acordo com assessora da Fundação BA, Telma Manganeli, “a programação de pesquisa só tem sido viabilizada através do suporte financeiro do Fundeagro, o que evidencia a participação dos produtores, e do apoio total dos proprietários de fazendas onde estão localizados os experimentos”.

As pesquisas, que a princípio estiveram concentradas no cerrado do oeste baiano, expandiram-se também para o Vale do Iuiú. Diferente do cerrado, na região sudoeste da Bahia os produtores se caracterizam por cultivarem áreas médias e pequenas, somando cerca de 20 mil hectares cultivados na safra passada.

na bahia

Aumento de área
plantada e de produção

2003

276.337 toneladas
em 85.744 hectares
rendimento de
3.223 kg/ha

2004

684.601 toneladas
em 201.512 hectares
rendimento de
3.397 kg/ha

FONTE: IBGE/Seagri/Bahia Agrícola