Biodiesel abastece comunidade no interior do Ceará

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06/09/2004

Biodiesel abastece comunidade no interior do Ceará


Usina-piloto na cidade de Quixeramobim investe R$ 1,5 milhão para cultivo de mamona e produção de óleo vegetal


Adriana Thomasi


Até o final deste mês, devem ser concluídos os trabalhos de instalação dos equipamentos - tomadas, interruptores, lâmpada, postes -, em ruas e casas de 27 famílias da pequena comunidade rural de Serrinha de Santa Maria, no distrito de Uruquê, no Ceará, permitindo a geração de energia elétrica renovável, a partir do óleo puro e do biodiesel produzido na usina-piloto da Fazenda Normal, instalada no município de Quixeramobim, a 224 quilômetros de Fortaleza.

A produção do combustível, que também vai abastecer a fazenda, iniciativa do Consórcio de Empresas de Energia (Cenp-Energia), formado pelas termelétricas Ceará Geradora de Energia (CGE), Cumins, Parnamirim, Engebra e TEP Potiguar, contempla investimentos da ordem de R$ 1,5 milhão, aplicados no cultivo de mamona e na unidade de esmagamento, com capacidade instalada de até 800 litros/dia, para a fabricação de óleo puro e biodiesel.

Inicialmente a usina vai produzir 360 litros/dia, quantidade suficiente para atender à demanda. "Vamos verificar a aplicabilidade, viabilidade financeira e o desempenho dos materiais e equipamentos, movidos a biodiesel e a óleo vegetal", adianta o gerente de projeto da CGE, Handerzon Palma. O negócio do grupo vai gerar 60 empregos diretos - 55 agricultores e 5 técnicos.

A fazenda ocupa área global de 200 hectares, cedida pelo governo do Estado, via Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce), e reserva de início 70 hectares para cultivo da mamona nordestina - variedade pesquisada pela Embrapa, considerada mais competitiva. "A mamona, de fácil manejo e indicada para as regiões do semi-árido, possui resistência à escassez de água e a solos secos", esclarece o gerente do Projeto na Ceará, Carlos Alberto Pinheiro, da Seagri. A estimativa é de produção de bagas, com de rendimento de 1.500 kg /hectare, 66% superior à média de outras regiões, que fica em torno de 750 quilos/ha.

Desenvolvido desde 2003, quando foram plantados 1937 hectares e colhidas 1.638 toneladas, o projeto avança e, neste ano, a Seagri prevê 8277h plantados - aumento de 427% em relação a ao exercício anterior. A colheita deverá render 8277 toneladas, 1000 toneladas por hectare, evolução de 500% sobre o ano anterior, e resultado do plantio em 65 municípios. O acréscimo previsto para a área cultivada chega a 30 mil hectares em 2005, representando produção de 27.800 toneladas - fortalecendo o agronegócio da mamona no Estado.

Visibilidade

"Projetamos crescer 20 mil hectares a cada ano, alcançando a 70 mil hectares em 2007", calcula. De acordo com o gerente, os números poderão ser ainda mais robustos em função da visibilidade do estado, que tem atraído o interesse de investidores. A Enguia, por exemplo, com projeto de cultivo da mamona no Piauí, está nos planos de gerente para uma área de 10 mil hectares no Ceará. Hoje, a Bahia é o principal produtor da mamona, com área superior a 100 mil hectares.

A área zoneada global envolve 85 municípios cearenses e a definição leva em conta altitudes entre 300 metros e 1500 metros. "Baixas altitudes podem provocar perda de rendimento do grão e do óleo, além do processo de reversão de flores", diz Pinheiro, ao lembrar que estão sendo implementadas pesquisas para reduzir os limites, o que permitiria ampliar a área cultivada no estado.

O gerente diz que o Ceará, com extensa área no semi-árido, tem todas as condições para expandir a cultura da mamona voltada ao biodiesel. Além disso, abriga instalações de antigas esmagadoras de algodão e mesmo da mamona, por exemplo, cultivada na década de 70, que chegou área 40.397 hectares de área média. "Vamos utilizar as instalações de usinas de esmagamento de Quixadá, Crateus, Santa Quitéria, Termelétrica Enguia, entre outras, interessadas no produto, reduzindo custos", afirma.

Entre as décadas de 40 a 70, o Ceará chegou a plantar áreas significativas, variando de 30 mil a 57 mil hectares. No início dos anos 80, a falta de estímulo, aliada ao baixo rendimento, resultou na desativação de indústrias beneficiadoras.

O fortalecimento da atividade vai contribuir ainda na geração de emprego e renda no campo, "a partir da produção de um combustível ecologicamente correto, renovável e economicamente viável". A previsão de empregos diretos para o próximo ano soma 4.500 vagas, chegando a 13,500 mil em 2008, com de receita líquida da ordem de R$ 398,40 por hectare, incluindo na soma a cultura do feijão. Os planos de Pinheiro incluem o sistema consorciado de culturas, permitindo a ocupação da mão-de-obra rural durante a maior parte do ano e renda extra.

Mercado

"A mamona tem mercado", afirma, ao assinalar que o produto está cotado entre R$ 0,60 e R$, 0,80 o quilo da baga - a variação de preços leva em conta o volume de oferta, qualidade e competitividade. "O uso da mamona como combustível reduz a poluição em condições de resgatar CO2 do ambiente e da 10 toneladas por hectare, devolvendo o oxigênio nas mesmas proporções", diz Pinheiro. O diesel tradicional produz fuligem à base de enxofre nocivo à saúde e a adição de biodiesel reduziria os efeitos, segundo o gerente.

"O biodiesel puro não polui e nem promove danos à camada de ozônio", esclarece. Além disso, as sementes industrializadas servem à produção de adubo orgânico e óleo, empregado na indústria de plástico, siderurgia, saboaria, perfumaria, curtume, tintas e vernizes, funcionando ainda como lubrificante para motores de alta rotação e carburante dos movidos a diesel.

Estimativas indicam que Nordeste concentra cerca de 4 milhões de hectares apropriados para o cultivo da mamona, em condições de atingir rendimento de até 1,5 tonelada de sementes por hectare, enquanto a média anual de outras regiões fica em 750 quilos. Potencial que poderá ser melhor explorado, a partir do chamado B2 - mistura de 2% do combustível renovável no diesel, representando consumo de 800 milhões de litros de biodiesel para a frota brasileira.

kicker: Ceará, com extenso semi-árido, vai expandir a cultura de oleaginosa

kicker2: A atividade vai contribuir na geração de emprego e renda no campo