Manejo e conservação de solos

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19/01/2021

 

De acordo com dados do Banco Mundial, a degradação dos solos utilizados na agricultura ocorre a uma taxa de 0,1% ao ano. Dados fornecidos pela Food American Organization (FAO) indicam uma perda de cinco milhões de hectares de terras aráveis por ano, ocasionada pelo mau uso do solo pela agricultura, além das secas, da pressão populacional e de outras ações antrópicas de destruição dos recursos naturais. O manejo, a proteção e uso do solo devem-se basear, primeiramente, no seu potencial produtivo. Sendo que para um manejo adequado do solo é necessário considerar suas propriedades físicas (aeração, retenção de água, compactação, estruturação), químicas (reação do solo, disponibilidade de nutrientes, interações entre estes) e biológicas (teor de matéria orgânica, respiração, biomassa de carbono, biomassa de nitrogênio, taxa de colonização e espécies de microrganismos).Um bom manejo do solo é aquele que propicia boa produtividade no tempo presente e que, também, possibilita a manutenção de sua fertilidade, garantindo a produção agrícola no futuro. Entre os fatores a considerar na escolha do sistema de manejo do solo em um vinhedo estão a conservação ou o aumento do teor e qualidade da matéria orgânica, a proteção do solo contra o impacto das gotas de chuva e a economia da água nele armazenada. Ao se discutir a sustentabilidade da produção agropecuária chamam a atenção o uso do solo com a agricultura tradicional, com preparo contínuo do solo. Dos componentes do manejo o preparo do solo talvez seja a atividade que mais exerce influência nos atributos dos indicadores da degradação física do solo, pois atua diretamente na sua estrutura, como também a degradação química e biológica. 

A conservação do solo - Atualmente, a conservação do solo é bastante ampla, estando associada à agricultura conservacionista, na qual se busca a preservação dos recursos naturais através de um manejo integrado do solo, da água e da biodiversidade. Para isso, vários fatores devem ser observados como:

a) uso do solo de acordo com a sua capacidade de uso;

b) preservação de banhados, nascentes, entre outros;

c) redução da mobilização do solo;

d) manutenção dos resíduos culturais sobre a superfície do solo;

e) utilização de rotação de culturas, aliada ao uso de plantas de cobertura; f) diversificação dos sistemas agropecuários, como sistemas agropastoris, agroflorestais e agrossilvipastoris;

g) adoção de um sistema de manejo integrado de pragas, doenças e plantas invasoras;

h) controle no uso de máquinas e equipamentos;

i) uso racional e moderado de agroquímicos.

 

Todos esses fatores combinados levarão a uma agricultura conservacionista que, feita corretamente, será ambientalmente aceitável e garantirá o uso do solo e a disponibilidade de água às gerações futuras. Dentre algumas práticas sustentáveis, tem-se o plantio direto, um sistema cada vez mais tecnificado, e que incorpora em seu conceito um maior caráter de sustentabilidade agrícola. Embora ainda existam alguns problemas e entraves no plantio direto, para os quais a pesquisa tem apresentado alternativas melhores, ele é a forma de manejo do solo que mais se assemelha às condições naturais e, por isso, deve ser cada vez mais aprimorado para atender aos interesses do homem e da natureza. Portanto, para que se tenha uma agricultura cada vez mais conservacionista, é necessário um grande investimento em pesquisa e educação, a fim de desenvolver ainda mais o sistema plantio direto. Além disso, os profissionais formados por instituições de ensino técnico ou superior devem desempenhar um importante papel nesse processo, que é a transferência ao produtor rural das tecnologias geradas. Com isso, será possível atingir uma agricultura mais racional e produtiva com segurança alimentar e preservação do ambiente.

 

Recuperação de solos degradados - A degradação do solo pode chegar a níveis tão elevados que ele se torna improdutivo ou inapto para a agropecuária. Porém, práticas conservacionistas de prevenção e recuperação podem evitar o avanço da de-gradação dos solos agrícolas. As práticas agropecuárias são, normalmente, fatores que podem levar à degradação se não realizadas corretamente dentro de um manejo conservacionista do solo, visando o uso dele dentro de sua potencialidade e capacidade de uso. De maneira geral, as práticas de prevenção e recuperação de áreas degradadas devem:

a) proporcionar uma cobertura do solo, através das plantas vivas ou de seus resíduos culturais, durante o maior tempo possível;

b) maximizar o potencial de infiltração da água da chuva e/ ou irrigação no solo;

c) evitar o escoamento da água no sentido do declive. Portanto, o manejo e conservação do solo são fundamentais à manutenção de sua qualidade e capacidade produtiva, garantindo esse recurso natural tão importante às gerações futuras. 

Sistemas de manejo do solo - Os sistemas de manejo do solo compreendem as diversas possibilidades existentes para preparar o solo, visando à implantação das diferentes culturas. Diversas são as operações envolvidas na condução dos sistemas de manejo, incluindo operações de semeadura, adubação, controle de plantas invasoras, além da conservação do solo. Durante muitos anos, o preparo convencional foi a forma de manejo dominante na agricultura sul brasileira, com intensa mobilização do solo. Com o passar do tempo, devido principalmente aos problemas de erosão decorrentes desse sistema, passou-se a adotar o preparo reduzido, o cultivo mínimo e, mais recentemente, o plantio direto. Atualmente, o plantio direto é a forma de manejo dominante nas áreas agrícolas brasileiras, ficando, os demais, restritos às culturas que não se adaptam a esse tipo de plantio. Pode-se considerar que o plantio direto revolucionou a agricultura, uma vez que os problemas decorrentes da erosão foram amenizados, com redução nos custos de produção.

 

A - MANEJO EM PREPARO CONVENCIONAL, REDUZIDO, MÍNIMO E PLANTIO DIRETO

Preparo convencional - O preparo convencional do solo consiste na lavração, seguida de gradagens com grade niveladora, onde os resíduos culturais são incorporados ao solo. Um dos principais motivos para a adoção desse sistema de preparo do solo é a eliminação de plantas invasoras e, em alguns casos, de pragas, como, por exemplo, do bicudo (Anthonomus grandis) na cultura do algodão.

Preparo reduzido - O preparo reduzido visa diminuir a mobilização do solo em relação ao preparo convencional. Resultando em menor incorporação de resíduos vegetais, menor inversão do solo, menor custo de preparo e redução das perdas de solo e água.

Cultivo mínimo - Cultivo mínimo é um sistema de cultivo que está situado entre o sistema de cultivo convencional e o sistema de plantio direto. Neste sistema o uso de máquinas agrícolas sobre o solo é mínimo, com a finalidade de menor revolvimento e compactação.

Plantio direto - O plantio direto é um sistema diferenciado de manejo do solo, visando diminuir o impacto da agricultura e das máquinas agrícolas sobre o mesmo. A utilização do plantio direto no lugar dos métodos convencionais tem aumentado significativamente nos últimos anos.

 

B - IMPLEMENTOS UTILIZADOS

Dentro da variedade de implementos que podem ser utilizados no preparo do solo à implantação dos diferentes manejos, podem-se destacar os seguintes: Arado de aivecas, Arado de discos, Grade de discos, Grade de

dentes, Enxada rotativa, Escarificadores, Subsolador, Semeadoras para plantio direto e Rolo-faca.

 

EFEITOS DE SE FAZER O MANEJO ADEQUADO DOS SOLOS

Na agricultura, o homem necessita manejar o solo de modo a garantir o bom desenvolvimento das plantas dos diferentes cultivos agrícolas. O solo, por sua vez, irá responder de maneira diferenciada às formas de manejo adotadas pelo homem. Por isso, o uso do solo, de forma racional e sustentável, depende do conhecimento do efeito dos diferentes sistemas de manejo utilizados sobre aspectos determinantes da qualidade do solo e como consequência a redução nas degradações físicas, químicas e biológicas.

 

Matéria orgânica do solo - O preparo convencional do solo, através de arações e gradagens, provoca a destruição dos agregados do solo e, consequentemente, altera a dinâmica da matéria orgânica, no que diz respeito ao seu conteúdo, bem como seus constituintes. Quanto aos resíduos culturais, quando eles são incorporados ao solo, a decomposição é acelerada pelo maior contato deles com o solo e, consequentemente, com a comunidade de decompositores. Como os resíduos culturais são precursores da matéria orgânica, a aceleração na sua decomposição leva a um menor acúmulo de matéria orgânica. Esse menor acúmulo de matéria orgânica proveniente dos resíduos culturais, somado à maior decomposição/mineralização da matéria orgânica que estava protegida no interior dos agregados fazem com que o resultado final do manejo do solo através do preparo convencional seja a lenta diminuição nos teores de matéria orgânica ao longo do tempo. Por outro lado, as formas de manejo conservacionistas do solo, como o cultivo míni-mo e o plantio direto, mantêm a estrutura dos agregados, além de retardar a decomposição da palha pelo fato de mantê-la na superfície.

 

População de macro e microorganismos do solo - O carbono, que é o principal constituinte da matéria orgânica, é o elemento essencial à síntese celular e à produção de energia por parte da maioria dos organismos que habitam o solo. Por isso, qualquer alteração na matéria orgânica afeta diretamente a população e a atividade da comunidade biológica do solo. As práticas de manejo conservacionistas oferecem condições mais favoráveis aos macro e microrganismos do solo, em relação ao plantio convencional. Isso ocorre, principalmente, pela presença dos resíduos culturais na superfície do solo, os quais atenuam as variações de temperatura, mantém a umidade em teores mais adequados, além de garantirem aos organismos o fornecimento lento e contínuo de carbono e nutrientes. Sem o revolvimento do solo no plantio direto, ou com o seu revolvimento parcial no cultivo mínimo, os macrorganismos, com destaque para as minhocas, constroem galerias ou poros biológicos, os quais funcionam como canais para a infiltração de água e aeração do solo, o que é desejável ao bom desenvolvimento das plantas.

 

Atributos químicos e fertilidade do solo - Os atributos químicos e, em consequência, a fertilidade do solo, também são significativamente afetados pelos sistemas de manejo do solo. No plantio direto, pelo fato de os resíduos culturais serem mantidos na superfície, a mineralização dos nutrientes é mais lenta e mais constante no tempo do que no preparo convencional do solo. Aliado a isso, a não mobilização do solo em plantio direto, as aplicações superficiais de fertilizantes e a ciclagem dos nutrientes dos resíduos culturais, conduzem a um aumento na concentração de nutrientes nas camadas mais superiores. Em plantio direto, a redistribuição dos nutrientes no perfil ocorre, principalmente, por lixiviação pela água das chuvas e também biologicamente através do transporte vertical pela ação da fauna edáfica.

 

Prosperidades físicas do solo - As propriedades físicas do solo são muito afetadas pelos diferentes sistemas de manejo, assim como as químicas e biológicas. O preparo intenso do solo, realizado no cultivo convencional, pode afetar negativamente as propriedades físicas, através da erosão, compactação, diminuição da porosidade, desagregação, diminuição da infiltração de água, entre outros. Já o plantio direto, por não mobilizar o solo, pode preservar as condições existentes quando de sua implantação, bem como melhorá-las com o passar do tempo tais como: densidade e porosidade do solo, umidade do solo, temperatura do solo e estabilidade dos agregados do solo.

 

Texto: Djalma Seixas
(Engenheiro Agrônomo, Especialização em Administração e Irrigação; diretor de irrigação da SEAGRI)
Publicação original: Revista Aiba Rural, # 18 / ano VI / 4º trimestre, 2020
Foto: Divulgação